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The Blarney Stone

Em uma das minhas viagens de carro pelo interior da Irlanda, me deparei com uma curiosíssima atração turística. Não me canso de dizer que alugar um carro pela Europa é um ótimo negócio, pela Irlanda especificamente, onde eu tive a experiência, mas acredito de seja o mesmo por outros países europeus.
Tinha um trajeto inicialmente: Dublin – Ring of Kerry. Com um mapa na mão, você direciona por onde vai passar até chegar ao seu destino final e na volta você já passa por outro caminho.

Bom, nesse trajeto encontramos o Blarney Castle. O que me disseram é que lá tinha uma pedra que, ao beijá-la, lhe dá o poder da eloquencia. Ótimo, a pedra – Blarney Stone como é conhecida – tem o poder mágico de lhe dar o dom da oratória, da persuasão! Claro que eu imaginei que seria como o pé de São Pedro na Basílica do Vaticano – enfrenta uma fila, passa a mão, dá um beijinho e está abençoado.

Não, adquirir esse dom lhe exige muito mais do que isso. Sem fila, você entra no Castelo. O bom da Irlanda é isso: interessantes e surpreendentes pontos turísticos sem fila. E me pergunto: cadê a pedra? Não, ela não fica na entrada da tower house. E pense no castelo no sentido original da palavra – fortificação. No geral, imaginamos castelo como palácio, o que não é verdade. O castelo são edificações mais antigas, geralmente medievais, que serviam como fortaleza para proteção também, além de moradia.

Ao entrar, fiquei sabendo que a pedra fica no último andar no castelo, no último pavimento descampado. Passamos pelos comodos do Castelo, até chegar ao topo que nos proporciona uma bela vista.

Sim, a pedra. É essa aí. A de baixo, algumas pessoas beijam a de cima, mas é nessa pedra mais abaixo que parece ter sido fixada aí.

Sim, veja a altura em que ela está. Não sei se dá pra você sentir a profundidade, mas pra mim que estava lá em cima e tenho certa aversão a altura foi o suficiente: não vou beijar. É, não, não. Não é só se agachar e se beijar. É deitar de barriga pra cima, segurar as barras (temos sorte, hoje em dia tem barra, nos tempos de Elizabeth não tinha), e beijar a pedra de cabeça pra baixo!

Na verdade, eu já estava ali e não poderia ir embora sem ter esse poder. Hoje em dia, nós sabemos o que tem poder na sociedade – a palavra, a lábia, convencer pessoas! Na verdade, sempre foi a palavra, desde os tempos romanos: “Quem tem boca vai à Roma”. EU SEI! É “Quem tem boca VAIA Roma”, antes que você pense “blogueira idiota”, mas o ditado foi modificado porque faz sentido as duas versões, e as duas se referem ao poder da palavra.

Sabendo da importância da eloquência, milhões de peregrinos junto com poetas e homens de Estado têm subido as escadas do castelo há mais de 200 anos para obter esse dom. E eu não ia? Subir foi fácil, mas chegar lá em cima e beijar… só tomei coragem depois que eu vi uma senhora de idade ir, numa boa, deitar e beijar. Imaginem fazer isso há 200 anos atrás. Nem digo duzentos, porque essa proteção deve ter surgido há no máximo 50 anos. Reza a lenda que dezenas de pessoas morreram tentando beijar a pedra por terem escorregado e caído pela vala ao tentar adquirir o dom. Já até virou drama de Sherlock Holmes (The Adventure of the Blarney Stone), onde o famoso detetive britânico investiga uma morte no castelo.

Mas de onde vem a fama da pedra? O que ela tem de especial? Alguns dizem que é a pedra era usada como travesseiro por Jacob, trazido pelo profeta Jeremias. Na Irlanda, o travesseiro se tornou o Lia Fail ou Fatal Stone, usada como um oráculo do reis irlandeses. A lenda diz também que foi uma pedra removida da Escócia, onde era usada como Stone of Destiny que profetizava a sucessão real. Ela foi dividida e enviada para o Blarney Castle quando o Rei de Munster, região sudoeste da Irlanda, defendeu Robert the Bruce dos ingleses em 1314. Sem saber o poder da pedra, seu segredo só foi revelado por uma bruxa que foi salva de um afogamento: “There is a stone there, That whoever kisses, Oh! He never misses To grow eloquent.” Há diversas lendas sobre a origem da pedra, mas o importante é que quem a beija nunca se perde nas palavras.

Me assistam em ação:

Em tempo: a Blarney Stone é dita uma das mais anti-higiênicas atrações turísticas do mundo!

Curiosidade: blarney  foi uma palavra incorporada à língua inglesa pela Rainha Elizabeth I. Sua origem é devido a tentativa de seu representante, Sir George Carew, convencer os MacCarthy – donos do castelo Blarney – a abandonar seus antigos direitos  e aceitar a autoridade do trono inglês. Toda vez ele ia e sempre ouvia longos e eloquentes dizeres de lealdade e bajulação à Rainha, mas sem acordo. Cansada, Elizabeth diz: “This is all Blarney. What he says he never means.” Assim, blarney é sinônimo de smooth, flattering talk, traduzindo, bajulação, conversa mole.

Saiba mais no site oficial da atração.

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St Patrick’s Day!!!

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Saint Patrick é o padroeiro da Irlanda. Graças a ele o trevo de três folhas é um dos símbolos da Irlanda. Sabiamente, Saint Patrick (ou São Patrício, aportuguesando) exemplificou o Santíssima Trindade usando o trevo de três folhas. Deve ser por isso que encontrar um trevo de quatro folhas é tão valorizado. Um trevo de quatro folhas então simboliza mais do que o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Bom, só suposição usando-se lógica. Mas bem da verdade, há mais trevos no sítio de Dona Sinhá do que aqui na Irlanda. Nos matinhos do sítio da minha avó, facilmente encontramos trevos, mas por aqui, nunca vi nenhum, só as sementes que são vendidas em todas as lojas de souvenires. Deve ser que junto com as cobras, Saint Patrick também “expulsou” os trevos. Sim, não há cobras na Irlanda porque Saint Patrick expulsou todas há mais de mil anos. Com um cajado de madeira na mão, ele conduziu todas as cobras da Irlanda em direção ao mar e elas nunca mais voltaram. Depois de saber disso, não tenho mais medo de andar nos matos da Irlanda.

 

 

 

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O St Patrick’s Day é celebrado dia 17 de março, sendo feriado nacional e dia santo. Dia 17 de março é a suposta data de seu falecimento. Essa data é comemorada em muitos lugares do mundo, sendo a maior celebração em Nova Iorque, quando as pessoas vestem verde para relembrar os campos verdejantes do interior da Irlanda. É a maior festa da Irlanda com uma grande parada na avenida principal, pubs lotados e permissão para se beber do lado de fora dos pubs. Aqui não é permitido beber na rua, então esse dia se torna mais especial ainda para os irlandeses, mas com um porém: só depois das 16h. Também imagine se eles começassem desde cedo? As comemorações começaram na quinta-feira e terminaram na segunda-feira, dia 17. Muitas festividades na cidade, parque de diversões e muita Guinness.

 

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Minha comemoração começou no sábado. Fui a Cashel  ver o festival de fogos de artifício, o SkyFest. Na verdade fui trabalhar lá, um trabalho muito duro: viajar, entregar durante 20 minutos gorros e cachecóis pro povo que foi pra festa, ver os fogos, voltar pra casa e ganhar bem por isso. Muito difícil! E não foi poucos fogos não, foi em torno de 15 minutos com uma linda paisagem ao fundo de um castelo do século IV, o Rock of Cashel. Espetacular!!! Veja o vídeo de 1 min, de 5 min e veja também a fumaça dos fogos se indo e o castelo aparecendo. Muito lindo!

 

 

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No domingo, fui comemorar o aniversário de Tanylle. Feijoada!!! Tudo é possível aqui nessa Irlanda.

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Uma cozinheira muito boa!!! E a baianada toda lá!

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No dia da Parada mesmo, fomos pra O’Connell Street ver qual era a parada. Bom, é tipo desfile de Sete de Setembro, um pouco mais animado. Eles homenageiam também as comunidades que vivem na Irlanda. Cada país faz um desfile.

 

 

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Na hora que passou o Brasil eu estava no telefone tentando escutar a Lisa e não prestei atenção. Mas era tipo um cara em cima de carro andante cantando uma musica de Axé, mas acho que era play-back… Depois disso fomos ao The Market almoçar.

 

 

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Depois do almoço, fomos para frente do National Concert Hall onde estavam tocando música tradicional irlandesa e apresentação de dança.

 

 

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E lá fomos nós tentar dançar.

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Sou boa de samba, que requebra as cadeiras e dança irlandesa se mexe muito o pé, mas não há remelexo. Não pode haver na verdade, é esse o jeito de dançar. Se requebra, tá errado.

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Pra terminar: PUB!!!! Ai, não se tem muito o que dizer, pub é pub.

 

 

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Deixando-se a metáfora de lado, não há cobra na Irlanda deste o período pós-glacial. Foi uma metáfora que St Patrick, o missionário do Cristianismo, utilizou para expulsar as coisas demoníacas dos Druidas que viviam aqui e não eram cristãos. Ao tentar trazer o Cristianismo a Irlanda, ele se utilizou do trevo também porque o trevo era sagrado para os druidas. Esperto ele, não?

Saiba mais sobre St Patrick e St Patrick’s Day aqui, aqui e aqui. 

 

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Alarme! Chamem a Policia!!!

Que vergonha! Jah imaginou uma casa soando uma sirene estrondosa? Pois eh.

Semana passada fui a um forroh aquí matar a saudade. Como minha casa eh relativamente longe e nao tinha ninguem que viesse para ca, dormi na casa de outros brasileiros que moram no centro que eh perto de tudo. Ha onibus a noite, mas nao se deve pegar sozinha e taxi eh a ultima opçao por ser muito caro. Liguei para Nora, tudo direitinho, dizendo que nao iria dormir em casa.

Quando volto para casa de manha, abro a porta e começo a ouvir um barulho: pib, pib, pib. O que eh isso? De repente, o barulho começou a aumentar, aumentar, ficou como uma sirene!!! E eu na porta da casa. Que vergooonha!

Comecei a imaginar que iria aparecer 12 carros de policia cercando a rua, armas apontadas para mim, helicoptero sobrevoando a area: “Voce esta cercada, renda-se!” Que mico!

Antes que isso acontecesse, corri na vizinha, uma senhora. Soh faltava ela nao abri a porta com medo de que agora seria a casa dela a ser roubada. Ela abriu. Expliquei minha situaçao para ela. Eu nao tinha o celular de Nora nem de Gabi, nem a vizinha… e a sirene tocando. Ai, ela lembrou que tinha o telefone da irma de Nora, ligamos para ela. Ela mandou eu voltar e entrar na casa, ia me ligar. Mas se eu entrasse e tivesse um sistema de segurança que tranca a pessoa dentro de casa e começa a soltar um gas mortifero??? Ai a vizinha disse que ia comigo (pelo menos eu nao iria ser presa sozinha, eu tinha uma socia na tentativa de furto). No fim de tudo, a irma de Nora me deu a senha, tudo voltou ao normal e eu acho que na realidade ninguem liga qd o alarme toca. Nem mesmo os vizinhos.

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De amarga basta a Guinness

Matéria publicada na Edição de Viagem e Turismo
Por: Ruth Aquino

Dublin 1

Com mil pubs, um povo jovem e muita criatividade, Dublin é a prova de que os irlandeses sabem curtir a vida

Um caso de amor me levou a Dublin. Ela é preta, encorpada, deliciosa, e tem 250 anos. A Guinness é uma cerveja stout (forte), e nasceu na Irlanda. Não tem nada a ver com o chope brasileiro, e desperta sentimentos extremos. É a principal atração turística de uma cidade de aproximadamente mil pubs. A fábrica tem um tour concorridíssimo, e produz 4 milhões de pints por dia, metade para exportação. Do Gravity, um bar circular envidraçado e lotado, no andar mais alto da Guinness Storehouse, promete-se a melhor vista panorâmica de Dublin, 360 graus. Ali, onde o ingresso dá direito a uma pint (568 mililitros) de graça, a vista é o menos importante, porque a Irlanda é uma terra de nuvens. Essa ilha ao norte da “outra”, a Inglaterra, costuma ser chuvosa, ventosa e sombria. De cima, avistamos chaminés, a arquitetura georgiana do século 18, feita de tijolo e bay windows, catedrais suntuosas do século 12, o Rio Liffey, que divide a cidade em norte e sul, e prédios modernos que mostram uma outra Irlanda. Hoje, o país é a sede européia do Google.

Dublin vem do irlandês dubh linn, ou “piscina negra”. Os cartazes estão sempre escritos em duas línguas, o inglês e o gaélico (“táxi” é tacsaí). Esse é um dos encantos da Irlanda: a tradição misturada a uma prole ilustre de rebeldes, com e sem causa. Os ex-malditos Oscar Wilde e Francis Bacon sofreram por ser homossexuais. Músicos como Bono e seu U2 nasceram numa escola. A vocalista Sinéad O’Connor começou aos 14 anos e era garçonete no The Bad Ass Cafe. Um roqueiro punk acabou transformado em paladino da Etiópia, Bob Geldof. Dublin produziu prêmios Nobel de Literatura, como Bernard Shaw, Samuel Beckett e W.B. Yeats. As ruas de pedra, os bares e as casas ao sul do rio são cenário de um clássico mundial, Ulisses, de James Joyce, publicado em 1922, quando vivia em Paris. O vampiro-mor, Drácula, também foi gerado ali, por Bram Stoker. Outro escritor irlandês foi Jonathan Swift, que fez o mundo viajar com Gulliver.

Essa terra remota só ficou independente há meio século, em 1948. A Irlanda foi invadida por celtas, vikings e normandos, enfrentou pestes, fome, massacres e uma guerra civil na resistência à Grã-Bretanha. Tem personalidade forte. Ao contrário dos ingleses, adotou o euro, é católica, seu padroeiro é St. Patrick. Proíbe o fumo em todos os bares, cafés, pubs e espaços públicos desde março do ano passado. Em vez de críquete, joga um “futebol gaélico” que desperta brigas e paixões – uma mistura de futebol brasileiro, americano e rúgbi.

Basta checar a previsão meteorológica de Dublin para notar outra curiosidade: há uma dezena de nomes para chuva na Irlanda – light showers, heavy rain, storm, drizzle são alguns, e variam de acordo com a intensidade. Dublin tem apenas 100 dias sem céu nublado por ano. Logo à entrada do escritório de turismo da cidade, vários guarda-chuvas à venda. E mesmo assim o país recebe por ano 3,7 milhões de turistas estrangeiros (o Brasil recebeu 4,7 milhões em 2004, embora a Irlanda inteira seja menor que o estado de Santa Catarina). A infra-estrutura é excelente: há 15 mil hotéis e guest-houses georgianas e vitorianas só em Dublin. O turismo histórico nos remete a mil anos atrás, e existe uma área remodelada de bares e ruas de pedestres que não dorme, chamada Temple Bar. Ali se exercita o esporte nacional: o craic, que quer dizer great, ou “curtir a vida”. Bares com música irlandesa, galerias de arte, ateliês de pintura, boates, muita paquera na rua, o Temple Bar é a clássica região decadente que virou o point da moçada. Dos 1,5 milhão de moradores de Dublin, 40% têm menos de 25 anos.

Eu poderia ter detestado a Irlanda porque a recepção contrariou toda a fama de simpatia do povo. Na Imigração, o funcionário me disse que, se eu estava em busca da Guinness perfeita, deveria ir para a Nigéria (onde fica hoje a maior fábrica de cerveja Guinness do mundo, com um teor alcoólico de quase o dobro da produzida em Dublin). Além disso, jamais recebi visto tão mesquinho: disse que ficaria ali três dias, e foi exatamente o que o irlandês carimbou em meu passaporte. Seria um pecado se a Irlanda moderna estivesse abandonando sua tradição de hospitalidade. Hoje, sul-americanos e europeus do leste trocam seus países por essa terra que lutou tanto para ganhar autonomia e dar direitos à sua população católica. Crescendo a uma taxa de 5% ao ano, com apenas 4,3% de desemprego, Dublin atrai jovens sul-americanos e do Leste Europeu em busca de trabalho. Em cinco anos, chegaram para ficar 250 mil novos imigrantes. No hotel em que me hospedei, Ariel House, havia dois argentinos trabalhando.

A primeira impressão de hostilidade foi dissipada ao andar nas ruas comerciais de pedestre, como a Grafton Street, e jantar ostras saborosas no Éden, um restaurante no Temple Bar. No dia seguinte, descobri que o melhor em Dublin é se assumir turista, e comprar um passe de 24 horas e 12,5 euros para os ônibus de dois andares da City Tour ou Dublin Tour. Os guias contam a história da Irlanda com um humor menos sutil que o inglês e mais irreverente, como o do brasileiro. O palácio monumental de 1729, ex-sede do Parlamento e hoje Banco da Irlanda, não tem nenhuma janela porque, segundo o guia, “uma vez que o seu dinheiro entra lá nunca mais vê a luz do dia”. O tour dura uma hora e 15 minutos, mas o mais sábio é ir descendo nos pontos que se deseja visitar a fundo, e pegar o ônibus seguinte.

Há também excursões temáticas, como a do rock’n’ roll e a dos vampiros e fantasmas. Estes últimos, aliás, são levados a sério. Na TV irlandesa, um debate quase acadêmico sobre almas penadas mostrava que a atração pelo lúgubre existe de verdade até hoje.

Nessa Irlanda pra todos os gostos, prefiro os pubs e os museus às assombrações. O Brazen Head é o mais antigo, de 1198, e tem shows de música folclórica. O McDaids é a melhor versão de “pub literário” de Dublin, criado em 1779. Para os bebedores de uísque, há a Destilaria Old Jameson, em Smithfield Village. Ali, trava-se também uma guerra, contra o uísque escocês. Os irlandeses se proclamam inventores da bebida que chamam de “água da vida” (uisce beatha, em gaélico). Na destilaria, o passeio inclui degustação de uísque e um teste: seis turistas são convidados a escolher o mais saboroso e puro. Escoceses e ingleses saem derrotados, sempre, nesse jogo de copos marcados.

O museu literário em Parnell Square é uma preciosidade, e vale a pena pegar o áudio para aprender um pouco sobre a vida dos escritores irlandeses, ouvir a voz de alguns no original, e entender como muitos marginais se tornam gênios. Alguns fugiram da sociedade opressora e religiosa da Irlanda de outros tempos: James Joyce se auto-exilou aos 22 anos, o pintor Francis Bacon foi expulso da casa do pai por ser gay e se mandou para Londres e Berlim aos 16 anos. O museu de arte moderna também deve ser visto: é a adaptação do Hospital Real Kilmainham, do século 17, com uma arquitetura sóbria, uma capela e um pátio central. Duas bibliotecas permitem uma viagem no tempo: a do Trinity College, com 64 metros de comprimento e o Livro de Kells, manuscrito dos quatro evangelhos do século 8; e a National Library, com uma sala de leitura circular estupenda. As catedrais protestantes Christ Church e St. Patrick, dos séculos 11 e 12, restauradas no século 19, estão entre os passeios clássicos.

Pretendo voltar à Irlanda no verão para conhecer Cork, onde se produz a outra saborosa cerveja preta, Murphy’s; para passear nas vilas de pescadores com casas coloridas, pegando o trem rápido, o Dart, que sai de Dublin; e também olhar de cima das falésias, os Cliffs de Moher. Quem é obcecado por castelo deve ir ao de Malahide, do século 12, 17 quilômetros ao norte de Dublin. Quem gosta de festa não pode perder o St. Patrick’s Day (17 de março), celebrado com o tradicional pub crawl, a peregrinação etílica pelos pubs da cidade.

Você pode não gostar de cerveja nem de uísque e achar que o café da manhã local com salmão e porridge (mingau quente de aveia) está fora de cogitação. O sotaque irlandês (bus se fala “bôs”), que a mim parece charmoso, pode ser ininteligível para quem não está acostumado. Mas é difícil não estabelecer uma relação carinhosa com a Irlanda. Dublin não é nenhuma viagem de ação, aventura ou impacto estético. É a descoberta de uma ilha festeira, poética, guerreira e original.

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