De amarga basta a Guinness

Matéria publicada na Edição de Viagem e Turismo
Por: Ruth Aquino

Dublin 1

Com mil pubs, um povo jovem e muita criatividade, Dublin é a prova de que os irlandeses sabem curtir a vida

Um caso de amor me levou a Dublin. Ela é preta, encorpada, deliciosa, e tem 250 anos. A Guinness é uma cerveja stout (forte), e nasceu na Irlanda. Não tem nada a ver com o chope brasileiro, e desperta sentimentos extremos. É a principal atração turística de uma cidade de aproximadamente mil pubs. A fábrica tem um tour concorridíssimo, e produz 4 milhões de pints por dia, metade para exportação. Do Gravity, um bar circular envidraçado e lotado, no andar mais alto da Guinness Storehouse, promete-se a melhor vista panorâmica de Dublin, 360 graus. Ali, onde o ingresso dá direito a uma pint (568 mililitros) de graça, a vista é o menos importante, porque a Irlanda é uma terra de nuvens. Essa ilha ao norte da “outra”, a Inglaterra, costuma ser chuvosa, ventosa e sombria. De cima, avistamos chaminés, a arquitetura georgiana do século 18, feita de tijolo e bay windows, catedrais suntuosas do século 12, o Rio Liffey, que divide a cidade em norte e sul, e prédios modernos que mostram uma outra Irlanda. Hoje, o país é a sede européia do Google.

Dublin vem do irlandês dubh linn, ou “piscina negra”. Os cartazes estão sempre escritos em duas línguas, o inglês e o gaélico (“táxi” é tacsaí). Esse é um dos encantos da Irlanda: a tradição misturada a uma prole ilustre de rebeldes, com e sem causa. Os ex-malditos Oscar Wilde e Francis Bacon sofreram por ser homossexuais. Músicos como Bono e seu U2 nasceram numa escola. A vocalista Sinéad O’Connor começou aos 14 anos e era garçonete no The Bad Ass Cafe. Um roqueiro punk acabou transformado em paladino da Etiópia, Bob Geldof. Dublin produziu prêmios Nobel de Literatura, como Bernard Shaw, Samuel Beckett e W.B. Yeats. As ruas de pedra, os bares e as casas ao sul do rio são cenário de um clássico mundial, Ulisses, de James Joyce, publicado em 1922, quando vivia em Paris. O vampiro-mor, Drácula, também foi gerado ali, por Bram Stoker. Outro escritor irlandês foi Jonathan Swift, que fez o mundo viajar com Gulliver.

Essa terra remota só ficou independente há meio século, em 1948. A Irlanda foi invadida por celtas, vikings e normandos, enfrentou pestes, fome, massacres e uma guerra civil na resistência à Grã-Bretanha. Tem personalidade forte. Ao contrário dos ingleses, adotou o euro, é católica, seu padroeiro é St. Patrick. Proíbe o fumo em todos os bares, cafés, pubs e espaços públicos desde março do ano passado. Em vez de críquete, joga um “futebol gaélico” que desperta brigas e paixões – uma mistura de futebol brasileiro, americano e rúgbi.

Basta checar a previsão meteorológica de Dublin para notar outra curiosidade: há uma dezena de nomes para chuva na Irlanda – light showers, heavy rain, storm, drizzle são alguns, e variam de acordo com a intensidade. Dublin tem apenas 100 dias sem céu nublado por ano. Logo à entrada do escritório de turismo da cidade, vários guarda-chuvas à venda. E mesmo assim o país recebe por ano 3,7 milhões de turistas estrangeiros (o Brasil recebeu 4,7 milhões em 2004, embora a Irlanda inteira seja menor que o estado de Santa Catarina). A infra-estrutura é excelente: há 15 mil hotéis e guest-houses georgianas e vitorianas só em Dublin. O turismo histórico nos remete a mil anos atrás, e existe uma área remodelada de bares e ruas de pedestres que não dorme, chamada Temple Bar. Ali se exercita o esporte nacional: o craic, que quer dizer great, ou “curtir a vida”. Bares com música irlandesa, galerias de arte, ateliês de pintura, boates, muita paquera na rua, o Temple Bar é a clássica região decadente que virou o point da moçada. Dos 1,5 milhão de moradores de Dublin, 40% têm menos de 25 anos.

Eu poderia ter detestado a Irlanda porque a recepção contrariou toda a fama de simpatia do povo. Na Imigração, o funcionário me disse que, se eu estava em busca da Guinness perfeita, deveria ir para a Nigéria (onde fica hoje a maior fábrica de cerveja Guinness do mundo, com um teor alcoólico de quase o dobro da produzida em Dublin). Além disso, jamais recebi visto tão mesquinho: disse que ficaria ali três dias, e foi exatamente o que o irlandês carimbou em meu passaporte. Seria um pecado se a Irlanda moderna estivesse abandonando sua tradição de hospitalidade. Hoje, sul-americanos e europeus do leste trocam seus países por essa terra que lutou tanto para ganhar autonomia e dar direitos à sua população católica. Crescendo a uma taxa de 5% ao ano, com apenas 4,3% de desemprego, Dublin atrai jovens sul-americanos e do Leste Europeu em busca de trabalho. Em cinco anos, chegaram para ficar 250 mil novos imigrantes. No hotel em que me hospedei, Ariel House, havia dois argentinos trabalhando.

A primeira impressão de hostilidade foi dissipada ao andar nas ruas comerciais de pedestre, como a Grafton Street, e jantar ostras saborosas no Éden, um restaurante no Temple Bar. No dia seguinte, descobri que o melhor em Dublin é se assumir turista, e comprar um passe de 24 horas e 12,5 euros para os ônibus de dois andares da City Tour ou Dublin Tour. Os guias contam a história da Irlanda com um humor menos sutil que o inglês e mais irreverente, como o do brasileiro. O palácio monumental de 1729, ex-sede do Parlamento e hoje Banco da Irlanda, não tem nenhuma janela porque, segundo o guia, “uma vez que o seu dinheiro entra lá nunca mais vê a luz do dia”. O tour dura uma hora e 15 minutos, mas o mais sábio é ir descendo nos pontos que se deseja visitar a fundo, e pegar o ônibus seguinte.

Há também excursões temáticas, como a do rock’n’ roll e a dos vampiros e fantasmas. Estes últimos, aliás, são levados a sério. Na TV irlandesa, um debate quase acadêmico sobre almas penadas mostrava que a atração pelo lúgubre existe de verdade até hoje.

Nessa Irlanda pra todos os gostos, prefiro os pubs e os museus às assombrações. O Brazen Head é o mais antigo, de 1198, e tem shows de música folclórica. O McDaids é a melhor versão de “pub literário” de Dublin, criado em 1779. Para os bebedores de uísque, há a Destilaria Old Jameson, em Smithfield Village. Ali, trava-se também uma guerra, contra o uísque escocês. Os irlandeses se proclamam inventores da bebida que chamam de “água da vida” (uisce beatha, em gaélico). Na destilaria, o passeio inclui degustação de uísque e um teste: seis turistas são convidados a escolher o mais saboroso e puro. Escoceses e ingleses saem derrotados, sempre, nesse jogo de copos marcados.

O museu literário em Parnell Square é uma preciosidade, e vale a pena pegar o áudio para aprender um pouco sobre a vida dos escritores irlandeses, ouvir a voz de alguns no original, e entender como muitos marginais se tornam gênios. Alguns fugiram da sociedade opressora e religiosa da Irlanda de outros tempos: James Joyce se auto-exilou aos 22 anos, o pintor Francis Bacon foi expulso da casa do pai por ser gay e se mandou para Londres e Berlim aos 16 anos. O museu de arte moderna também deve ser visto: é a adaptação do Hospital Real Kilmainham, do século 17, com uma arquitetura sóbria, uma capela e um pátio central. Duas bibliotecas permitem uma viagem no tempo: a do Trinity College, com 64 metros de comprimento e o Livro de Kells, manuscrito dos quatro evangelhos do século 8; e a National Library, com uma sala de leitura circular estupenda. As catedrais protestantes Christ Church e St. Patrick, dos séculos 11 e 12, restauradas no século 19, estão entre os passeios clássicos.

Pretendo voltar à Irlanda no verão para conhecer Cork, onde se produz a outra saborosa cerveja preta, Murphy’s; para passear nas vilas de pescadores com casas coloridas, pegando o trem rápido, o Dart, que sai de Dublin; e também olhar de cima das falésias, os Cliffs de Moher. Quem é obcecado por castelo deve ir ao de Malahide, do século 12, 17 quilômetros ao norte de Dublin. Quem gosta de festa não pode perder o St. Patrick’s Day (17 de março), celebrado com o tradicional pub crawl, a peregrinação etílica pelos pubs da cidade.

Você pode não gostar de cerveja nem de uísque e achar que o café da manhã local com salmão e porridge (mingau quente de aveia) está fora de cogitação. O sotaque irlandês (bus se fala “bôs”), que a mim parece charmoso, pode ser ininteligível para quem não está acostumado. Mas é difícil não estabelecer uma relação carinhosa com a Irlanda. Dublin não é nenhuma viagem de ação, aventura ou impacto estético. É a descoberta de uma ilha festeira, poética, guerreira e original.

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6 Comentários

Arquivado em Irlanda - matérias

6 Respostas para “De amarga basta a Guinness

  1. Taty ( Caraíba)

    Kéééérol!!!

    Desculpe por não ter ido me despedir de vc, mas tenho acompanhado o seu blog e tenho adoraaaaaado!!! Vc escreve super bem minha filha!!! rsrsrs!!! Me poco de rir!!!

    Vc é uma figura!!! Estou muito feliz por vc e torço pra que tudo dê certo aí pra vc viu??

    Gosto muito de vc!!!
    Um grande beijo!!
    Taty Prazeres

    P.S.: Diga a Nora que ela é uma santa!! rsrsrs!!!

  2. Magda

    Carol, bom dia!! Vc não me conhece, moro em Porto Velho/RO…meu filho de 22 anos está indo para Dublin (estudar e trabalhar)…se vc pudesse dar uma força pra ele, ficaria grata…ele sai do Brasil dia 29/12…por favor, entre em contato…ainda não arrumei acomodação, se souber de algo me avise….bjs Magda

  3. Oi Magda,

    Tudo bem?
    Não estou mais em Dublin… mas sugiro que vc compre junto com a escola que seu filho ira estudar a acomodação em casa de familia por 1 mês. Assim, vc fica masi tranquila e ele vai se adaptando a cultura, fazendo amigos ate achar um lugar para morar.

    Abçs

  4. CAETANO

    Ola vc poderia compra ou alugar um acomodação perto ou na escola para seu filho.

    Caetano.

  5. fe

    Carooool

    Por qual agencia vc foi??
    Sera q a Nora ainda “abriga” pessoas como homestay?rs

    Beijoo

  6. Oi, Fe!

    Fui pela Pride http://www.pride.com.br , fale com Tatiana lá.

    A Nora deve abrigar pessoas ainda, mas ela faz por intermedio da escola que vc estuda… ela é legal, mas não eh a melhor de todas… vc pode ter uma boa experiência com outras.

    Abçs

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